terça-feira, 1 de outubro de 2024

hino do não-inexistente

Não havia a existência nem a não-existência. Não havia o mundo da matéria, nem o firmamento, nem o espaço além dele. 

O que o envolvia, e onde estava? Qual era o seu propósito, quem o protegia? Que água, profunda e insondável, havia?

Não havia a morte nem a imortalidade, nem nada que separasse a noite do dia.  

Aquele Um, em seu envoltório, a si mesmo respirava e não respirava. Afinal, só havia Um e mais nada. 

No princípio, a escuridão era envolvida pela escuridão. Tudo era água cósmica, sem nenhuma distinção. 

Este Um, envolto pelo nada, emergiu através do calor da austeridade. Assim surgiu o desejo, que da mente é a primeira semente. 

Os videntes-poetas, buscando a sabedoria profunda do coração, encontraram a linha tênue entre a existência e a não-existência pela meditação.

O raio (de sua vidência) se estendeu para envolver (a existência e a não-existência). Abaixo e acima seriam separados por essa linha?

Da força em expansão, havia uns que davam semente; outros, que eram potência. Embaixo o esforço, em cima o dar de si.

Quem conhece a verdade? Quem dirá como e de onde tudo surgiu? Os deuses vieram após a manifestação do mundo, então quem sabe de onde ele veio?

Esta criação manifestou a si mesma, ou não? Aquele que a contempla do espaço mais elevado certamente sabe... ou não.

(adaptado a partir de traduções do Nasadiya Sukta, Rig Veda 10:129, disponíveis na internet) 

quarta-feira, 25 de setembro de 2024

linhas borradas do desejo

um dos primeiros mitos hindus que conheci foi o de indra - o maior dos deuses na era védica - e a maldição que ele sofreu por não ser capaz de controlar os próprios desejos.

curiosamente, o nome indra vem do sânscrito indriya, que se refere aos órgãos sensoriais. apesar de ter sido muito cultuado nos primórdios do hinduísmo, associado às forças naturais que provocam chuvas e trovões, com o passar dos séculos ele se tornou um deus menor na tradição politeísta. 

em uma história vaishnava que explica essa transição, krishna se revela soberano levantando uma montanha para proteger os habitantes de um vilarejo da tirania de indra, que exigia grandes sacrifícios para cessar as chuvas intensas. dessa forma, vishnu se mostra o mais poderoso dos deuses: seu avatar, krishna, representa o equilíbrio do universo. 

krishna desafia indra ao levantar montanha (domínio público

mas a história que me apresentou a indra foi outra: a da sua atração pela esposa do sábio gautama. este era um devoto tão dedicado a brahma que recebeu dele a mão de ahalya, moldada a partir da beleza de toda a criação. e foi essa beleza que conquistou o ambicioso indra, disposto a qualquer coisa para tê-la.

semelhante a certos deuses gregos, nem mesmo o rei dos deuses hindus era imune à força dos seus desejos. o que me lembra o trecho de uma entrevista da madhavi menon, escritora indiana e teórica queer, em que ela descreve o desejo como uma hidra de várias cabeças, impossível de ser domada ou categorizada, independentemente da cultura:

"O desejo é mais resistente à taxonomia do que gostaríamos de pensar. Isso é o que o torna fascinante, e também por isso que é triste pensar que a nossa libertação está em taxonomizá-lo. Que nossa libertação está em surgir com mais e mais nomes para descrever o que somos, em vez de permitir que a ausência de nome ou a inominabilidade sejam uma dessas possibilidades." (Madhavi Menon, 1:34:25

indra e ahalya (via wikimedia)

voltando à história, indra assume a forma de gautama e espera o sábio sair de casa para surpreender ahalya. ela desconfia que aquele não é o seu marido asceta, mas se deixa seduzir. quando gautama retorna, percebe que foi traído com um intruso e amaldiçoa o casal: ahalya vira uma pedra e indra fica com o corpo coberto de yonis; afinal, não é disso que ele tanto gosta?

depois eles são perdoados e a maldição é anulada. as mil yonis no corpo de indra se transformam em mil olhos, o que permite a ele, nas palavras de devdutt pattanaik, permanecer vigilante aos seus sentidos: quais estímulos eles recebem, e qual resposta ele pretende dar? de que forma ele usa seu poder e sua influência?

"Quando pensamos sobre desejo, infelizmente, temos que estar cientes de que ele pode ser extremamente violento. Esse é o perigo do desejo. Ele pode ser violento por questionar o status quo, e esse tipo de violência é algo que encorajamos. Mas também pode ser violento por jogar ácido no rosto de uma mulher que diz 'não'; esse é o tipo de violência que não queremos. Como separamos um do outro? Porque muitas vezes é um que se transforma no outro. Em muitas dessas narrativas de ataques com ácido, por exemplo, o homem dirá 'Eu a amava'. Isso pode nos parecer, e deve parecer, algo totalmente deturpado. Mas o lado obscuro do desejo é que todo desejo pode ser deturpado dessa forma." (Madhavi Menon, 1:59:10

outra história da mitologia hindu em que mulheres sofrem as consequências de desejarem deuses é a de kritikka, as seis mães de kartikeya, o deus da guerra. elas foram abandonadas por seus maridos, sábios como gautama, por preferirem o amor de agni, deus do fogo. mais tarde, tiveram a honra de cuidar de kartikeya, que é filho de shiva.

apenas a sétima irmã, arundhati, não foi acusada de infidelidade e tornou-se uma estrela ao lado das sete estrelas mais brilhantes da constelação ursa maior, que representam os sete sábios. já as seis irmãs divorciadas formam a constelação das pleiades, e dizem que elas trazem azar se não forem lembradas como mães de kartikeya.

kritikkas cuidam de kartikeya, deus da guerra

o nome de agni, que é o elemento fogo, está na origem da palavra ignição e é associado à criatividade e à clareza do pensamento. capaz de reduzir a cinzas as impurezas do mundo material, era muito venerado nas antigas cerimônias védicas (yagyas) e até hoje é visto como uma ponte para a dimensão espiritual. esse aspecto incisivo também está presente nas kritikkas, que o amam.

o amor das kritikkas pelo deus do fogo situa o desejo delas para além da dimensão material. essa característica de não se limitar ao corpo, mas poder se manifestar em todos os lugares, pode ser explicada através de um mito do deus do desejo, kamadeva. como madhavi menon conta em seu livro "infinite variety":

“Sabe-se que Kama, o deus hindu do desejo romântico e sexual, é ananga — sem membros e, portanto, sem corpo. O que significa que, historicamente, na Índia, o desejo é visto em todos os lugares. Qualquer coisa pode ser considerada um objeto ou sujeito de desejo. O desejo não se limita a um corpo (humano). A lenda diz que Kama (em uma versão, nascido do criador, Brahma) é encarregado de induzir o desejo no peito de Shiva para que ele e Parvati gerem um descendente capaz de derrotar o demônio Tarakasura. Shiva fica tão indignado por ser despertado de suas meditações iogues que ele abre seu terceiro olho e queima Kama até ele virar cinzas. Shiva cede quando Parvati implora para que ele desfaça as consequências de sua ira. Ele permite que Kama viva, mas apenas sem um corpo. Assim nasce o deus incorpóreo do desejo.”³

as linhas borradas do desejo não só o tornam difícil de domar, enquanto força que resiste a categorizações, mas também refletem a sua ambivalência e o seu potencial de transformação. permitir que ele guie nossas ações significa ir em direção ao que nos atrai e, no momento do encontro, deixar que as fronteiras se dissolvam. 

assim como se pode desejar o poder, na forma de indra, ou a purificação, na forma de agni, há histórias sobre o desejo de entrar em sintonia com o universo na forma de krishna, o "todo atraente". a dança do amor divino, ou rasleela, é um dos símbolos do bhakti-yoga que representa a união entre krishna e as gopis (vaqueiras), ou seja, entre o divino supremo e a dimensão espiritual de cada pessoa.

krishna e gopi (abdur rahman chughtai)

o que se busca através do bhakti-yoga é se entregar ao fluxo da vida, seguindo o ritmo que krishna toca em sua flauta e que revela qualidades repletas de doçura (madhu). para os devotos, amá-lo significa diluir os limites impostos pelos órgãos sensoriais (indriya) e superar a ilusão de possuir qualquer coisa, pois tudo pertence ao universo. 

pertencer ao universo é descobrir que ele também está contido em nós mesmos. ao compreender que toda separação é ilusória, a força da entrega devocional consiste no próprio desejo pela transcendência, capaz de borrar as linhas, traçadas pela nossa mente, entre sujeito e objeto. 


¹"Desire is more resistant to taxonomy than we would like to think it is. And that's what makes it fascinating, which is also why it's sad when we think that our liberation lies in taxonomizing it. That our liberation lies in coming out with more and more names to describe what we are, rather than allowing namelessness or unnameability to be one of those possibilities." (Madhavi Menon, 1:34:25)

²"When we think about desire, unfortunately, we have to be aware of desire can be extremely violent. That's the danger of desire. It can be violent in a way that we like because it can question the status quo; that's how we've been talking about, and that kind of violence is something we encouraged. It can be violent because it can throw acid in the face of a woman who said no to me; that's the kind of violence we don't want. How do we separate one from the other? Because it's often one that turns into the other. In many of these narratives of acid attacks, for instance, the man will say 'I loved her'. That can strike us, and should, as being utterly warped. But the dirty secret of desire is that all desire is potentially warped that way." (Madhavi Menon, 1:59:10)

³“Famously, Kama, the Hindu god of romantic and sexual desire, is ananga—without limbs, and therefore without a body. Which means that historically in India, desire is seen as being everywhere. Anything can be considered an object or subject of desire. Desire is not confined to a (human) body. The legend goes that Kama (in one version, born of the creator, Brahma) is deputed to induce desire in Shiva’s breast so that an offspring of Shiva and Parvati might be created to defeat the demon Tarakasura. Shiva is so incensed at being awoken from his yogic meditations that he opens his third eye and burns Kama to cinders. Shiva relents when Parvati begs him to undo the consequences of his wrath. He allows Kama to live, but only without a body. Thus is born the bodiless god of desire.”

sexta-feira, 13 de setembro de 2024

estranhamento poético

descubro muitas coisas por acaso desde que a índia se tornou o meu império romano.

quando ainda estava lá, peguei um livro com o sugestivo título "book of desire" e descobri que se tratava de um olhar feminista sobre a última parte do clássico "tirukkural", traduzido do tâmil para o inglês pela poeta meena kandasamy.

ao pesquisar mais sobre a tradutora, escutei-a recitando um poema autoral, "mulligatawny dreams", em que ela sonha com um inglês repleto de palavras da sua língua: 

"um inglês com mais de 36 palavras para chamar o mar / um inglês que não menospreze homens e mulheres marrons ou negros / um inglês que saboreie com os cinco dedos / um inglês que fale amor apenas com os olhos"

apesar de ser um vídeo antigo, gosto de como ela aborda com humor e leveza a inexistência de certas traduções, ao mesmo tempo em que se refere ao intraduzível que, tantas vezes, é o que a poesia se esforça em transmitir. não que eu seja alguma especialista nesses temas.

pra ser sincera, tenho uma vaga lembrança de algum comentário, em alguma aula de literatura sobre formalismo russo, sobre o efeito de estranhamento que a poesia provoca... e nunca me aprofundei nisso.

anos depois, ouvi falar do conceito antropológico de estranhamento, que vem do francês dépaysement ("desapaisamento") e deve ter sido elaborado por lévi-strauss, mas também não explorei a fundo como gostaria.

ainda assim, imagino entender do que se trata e sigo buscando palavras de autoras que estranham qualquer ideal de hegemonia. acho que foi esse pluralismo que me atraiu, e continua me atraindo, para a índia.

eunice de souza foi um dos nomes que me chamou atenção. primeiro, por soar tão familiar, vindo do português de goa. segundo, por sua postura irônica e realista, como relata uma de suas alunas:

"She told us about a stray dog on the Bombay University Kalina campus, who would go hungry to feed her pups. I told Eunice that several cats I knew smacked their own kittens if they tried to take away the mothers’ share of food. She replied, ‘Much more sensible, don’t you think?’"

primeira coleção de poemas, lançada em 1979

dentre seus vários poemas espalhados pela internet, esse é um dos que mais gosto:

PEDAÇO DE CONVERSA

Um dia a minha tia educada à portuguesa
pegou num shivalingam de barro
e disse:
é um cinzeiro?

Não, disse o vendedor,
é o nosso deus.

shivalingam de barro

como é possível imaginar a surpresa e o constrangimento de quem pergunta se o objeto sagrado é um mero objeto de descarte, os versos lembram que nossa visão também é limitada. mas eunice de souza não expõe para constranger. no trecho de outro poema, ela mesma afirma sua independência através do (não) pertencimento:

No matter that
my name is Greek
my surname Portuguese
my language alien

There are ways
of belonging

I belong with lame ducks.

continuando a minha pesquisa, encontrei o recorte de uma entrevista que ela fez com a poeta imtiaz dharker, nascida no paquistão e naturalizada britânica:

talking poems: conversations with poets (oxford india)

"Não penso que uma garota ocidental saindo com um garoto seja liberdade. Liberdade é algo dentro de você. Ser capaz de ficar fora de uma cultura é liberdade. Amo ser uma outsider. Diria "alienação", ser outsider é positivo. Não alienada de fato, mas ficar de fora. Ser uma outsider é meu país."

as duas sabem como é difícil lidar com a sensação de não pertencer. por mais que esse incômodo faça parte da experiência de se reconhecer e se distinguir como indivíduo, seres humanos preferem viver em grupo. no entanto, a entrevistada se sente mais livre por ser "de fora", diz que "fora" é o país dos escritores. por quê?

o que imagino do estranhamento, de forma rasa e extensa, é um olhar sensível para o outro e a redescoberta de si mesmo. o "estar no mundo sem ser do mundo" dos poetas e, quem sabe, um retorno a si através da memória. ao menos, isso é o que transparece pra mim quando imtiaz dharker escreve sobre romãs:


COMO CORTAR UMA ROMÃ

“Nunca”, disse o meu pai,
“nunca cortes o coração
de uma romã. Vai chorar sangue.
Trata-a com delicadeza, com respeito.
Basta cortar a casca em quatro quartos.
É uma fruta mágica,
quando a abrires, está preparada
para que as joias caiam,
mais preciosas do que granadas,
mais lustrosas do que rubis,
como se iluminadas por dentro.

Cada joia contém uma semente viva.
Separa um cristal.
Segura-o para captar a luz.
Por dentro é um universo inteiro.
Nenhuma joia vulgar pode te dar isso”.

Depois tentei fazer colares
de sementes de romã.

O sumo de um carmesim brilhante jorrou
e manchou os meus dedos, depois a minha boca.

Não me importei. O sumo tinha o gosto de jardins
que nunca tinha visto, a volúpia
da murta, do limão, do jasmim,
vivo com asas de papagaio.

A romã recordou-me
que em algum lugar tive outra casa.

segunda-feira, 9 de setembro de 2024

snufkin


"It's the right evening for a tune, Snufkin thought. A new tune, one part expectation, two parts spring sadness, and for the rest, just the great delight of walking alone and liking it. " (Tales from Moominvalley)

sexta-feira, 6 de setembro de 2024

na companhia das máquinas

aqui, na casa da minha mãe, a geladeira apita quando deixamos a porta aberta e a máquina de lavar toca uma musiquinha quando o ciclo de lavagem termina. 

acho engraçado e às vezes brinco, digo que os eletrodomésticos estão querendo conversar. minha mãe adora isso, sabendo desde a época em que consertava computadores, nos anos 1990, o quanto as máquinas podem ser temperamentais. 

pra ser honesta, também considero a geladeira e a máquina de lavar umas queridas. e os que se recusam a congelar comida que me perdoem, mas o freezer é fundamental. eu me apaixonei por ele quando passei a morar sozinha. 

te amo tanto bb

aí me pego pensando que, se todas as máquinas fossem prestativas como os eletrodomésticos que nos livram de horas de trabalho braçal, o mundo talvez fosse um lugar melhor... mas logo sou intercedida por um incômodo: do que adiantaria, se já estamos usando nosso "tempo livre" para nos curvar diante de outras máquinas?

nesse sentido, tenho minhas noias. principalmente quando os não tão louváveis smartphones parecem armar um complô junto às plataformas online e seus algoritmos para antecipar nossos desejos e, assim, anunciar novas formas de satisfazê-los. pois bem,

  • se a tecnologia tende a ficar cada vez mais "smart", será que a distância entre nossos desejos e o movimento necessário para realizá-los pode encurtar cada vez mais... até um dia desaparecer?
  • se é o desejo que leva ao movimento, então nossa tendência seria a de ficar mais estagnados, ou mais estimulados, ou condenados a essa neurose em que as duas tendências coabitam?

parece que eu ia escrever uma declaração de amor pro meu freezer e acabei levantando grandes questões. mas a tecnologia também oferece soluções distópicas pra isso, como trocar ideia com o chatgpt e, quem sabe, ser iluminada com um pouco de "bom-senso" (apesar dos nossos desentendimentos no passado).

tove jansson entenderia meu desabafo

ao conversar com chatbots, talvez o que mais me incomode é que eles não têm muita personalidade, e nem podem ter. a geladeira e a máquina de lavar exibem um certo charme ao exigir nossa atenção com bits ritmados; o chatgpt, por sua vez, simplesmente oferece tudo o que a gente pedir. 

não quero soar rancorosa, mas sinto como se ele fosse um tipo de companhia interesseira, que fala coisas só pra agradar e é capaz de distorcer informações em vez de admitir que não sabe a resposta. e ainda consome muito da nossa energia em poucos minutos de convívio. 

sem empatia nem reflexão, o chatgpt me devolve logo o senso comum, a opinião do grande grupo, de uma forma que evita o conflito. sabe a adrenalina na hora de debater ideias? ou o rush de dopamina após aprender coisas novas? niente. fico frustrada.

"humm, o que será que o computador quis dizer?"

agora, assumindo o risco de soar pretensiosa, acho que entendo melhor o que significa "expansão de consciência": a capacidade de reconhecer diferentes formas de olhar para a mesma questão. é o contrário de uma resposta única, calculada para agradar todo mundo. 

então vou respirar aliviada e lembrar que, em relação aos robôs inteligentes, a gente sempre vai ter uma vantagem enquanto acreditar que a discordância é o princípio de uma boa conversa. 

afinal, se a graça do desejo é o movimento que a gente faz no esforço de satisfazê-lo, por mais que isso seja impossível, talvez a graça da conversa seja a tentativa de fazer duas mentes se corresponderem, por menor que seja a possibilidade de compartilhar a mesma, idêntica, visão de mundo. 

e nisso, cérebro eletrônico nenhum me dá socorro...

segunda-feira, 2 de setembro de 2024

google cristo, eu estou aqui

eu queria muito criar um blog. 

ok, ok. esse desejo só surgiu na última semana, após eu ter feito algumas pesquisas no google que me levaram a links deveras inusitados.

um pouco de contexto: no meu último emprego - do qual saí após um burnout desencadeado pelo frisson de lideranças diante dos avanços da IA generativa -, eu queria ser a melhor analista de conteúdo do mundo.

e com isso quero dizer "idiota". afinal, o que me pedissem, eu fazia, e às vezes até passava mais de 8h trabalhando por querer tanto ver resultados (leia-se: lucro dos patrões). foi assim que entrei no universo mágico do SEO.

a tal da otimização para mecanismos de busca acabou me trazendo alguns primeiros lugares na pesquisa do google, e fui me empolgando com a escrita de blog posts. 

formada em jornalismo, sei como é difícil motivar as pessoas a lerem alguma coisa em tempos de vídeos curtos. então conquistar a atenção do google, apesar de também ser um desafio, soava um pouco mais tangível pra mim. 

eu também achava que chegar ao topo das páginas de busca seria um motivo pra me valorizarem no trabalho. e sim, isso fez sentido na minha cabeça até o momento em que percebi que não dava pra competir com a IA generativa.

juro que tentei colaborar. em conversas com o chatgpt, eu pedia para que ele me ajudasse. afinal, não era isso que os charlatões do marketing digital falavam em todos os anúncios direcionados para a minha conta do instagram?

no fundo, eu queria acreditar que quem usasse a IA a seu favor teria um lugar ao sol no futuro do marketing. era só aprender a escrever prompts e comprar a licença paga da openAI, diziam os vendedores de cursos, gurus e coaches marketeiros.

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ainda bem que não gastei dinheiro com infoprodutos do tipo, sabendo que havia algo muito errado nessa história. ninguém precisa ser um gênio pra perceber que o chatgpt é broxante. mas acho que o google demorou pra dar o troco.

nos meses seguintes, inclusive depois de eu ter pedido demissão, os resultados das minhas buscas só pioravam a cada dia. textos ruins, redundantes, mal traduzidos... e sites com aquela aura fake de domínio recém comprado.

depois veio uma atualização que foi o ápice da irrelevância de conteúdos. e outra que dava destaque a respostas de comunidades como o quora e o reddit, causando revolta em muitos especialistas de SEO que assistiram a uma queda dramática no tráfego dos seus sites.

mais recentemente, integraram a experiência generativa de busca que gera um resumo de IA no topo da página, outra polêmica. pra mim, não faz diferença porque não leio esses resumos, só deslizo a tela e clico em algum link que pareça confiável. 

mas aí, o que aconteceu na última semana? ao clicar nesses links, fui pega de surpresa. acabei indo parar em blogs, sites independentes e páginas com html ultrapassado. foi tão lindo. de verdade, parecia um revival da internet na década de 2000.

quando descobri que isso se deve à atualização mais recente do algoritmo, uma esperança se fez em minh'alma: e se ressuscitarem o tempo dos blogs? sei que é muito mais provável vir outra atualização em algumas semanas, mas... poxa, google. por favor, eu nunca te pedi nada.


então escolhi o primeiro nome que me veio à cabeça (uma corruptela de tupperware, metonímia ao mesmo tempo inócua e subversiva), criei esse blog e escrevi este texto. para o azar dos robôs, decidi que não vou otimizar nada.

agora posso dizer que, apesar de desempregada, realizei um desejo meio bobo. ele pode ir pra frente ou não passar da breve defesa de uma causa perdida. de qualquer forma, o próximo passo é melhorar esse template.