quarta-feira, 25 de setembro de 2024

linhas borradas do desejo

um dos primeiros mitos hindus que conheci foi o de indra - o maior dos deuses na era védica - e a maldição que ele sofreu por não ser capaz de controlar os próprios desejos.

curiosamente, o nome indra vem do sânscrito indriya, que se refere aos órgãos sensoriais. apesar de ter sido muito cultuado nos primórdios do hinduísmo, associado às forças naturais que provocam chuvas e trovões, com o passar dos séculos ele se tornou um deus menor na tradição politeísta. 

em uma história vaishnava que explica essa transição, krishna se revela soberano levantando uma montanha para proteger os habitantes de um vilarejo da tirania de indra, que exigia grandes sacrifícios para cessar as chuvas intensas. dessa forma, vishnu se mostra o mais poderoso dos deuses: seu avatar, krishna, representa o equilíbrio do universo. 

krishna desafia indra ao levantar montanha (domínio público

mas a história que me apresentou a indra foi outra: a da sua atração pela esposa do sábio gautama. este era um devoto tão dedicado a brahma que recebeu dele a mão de ahalya, moldada a partir da beleza de toda a criação. e foi essa beleza que conquistou o ambicioso indra, disposto a qualquer coisa para tê-la.

semelhante a certos deuses gregos, nem mesmo o rei dos deuses hindus era imune à força dos seus desejos. o que me lembra o trecho de uma entrevista da madhavi menon, escritora indiana e teórica queer, em que ela descreve o desejo como uma hidra de várias cabeças, impossível de ser domada ou categorizada, independentemente da cultura:

"O desejo é mais resistente à taxonomia do que gostaríamos de pensar. Isso é o que o torna fascinante, e também por isso que é triste pensar que a nossa libertação está em taxonomizá-lo. Que nossa libertação está em surgir com mais e mais nomes para descrever o que somos, em vez de permitir que a ausência de nome ou a inominabilidade sejam uma dessas possibilidades." (Madhavi Menon, 1:34:25

indra e ahalya (via wikimedia)

voltando à história, indra assume a forma de gautama e espera o sábio sair de casa para surpreender ahalya. ela desconfia que aquele não é o seu marido asceta, mas se deixa seduzir. quando gautama retorna, percebe que foi traído com um intruso e amaldiçoa o casal: ahalya vira uma pedra e indra fica com o corpo coberto de yonis; afinal, não é disso que ele tanto gosta?

depois eles são perdoados e a maldição é anulada. as mil yonis no corpo de indra se transformam em mil olhos, o que permite a ele, nas palavras de devdutt pattanaik, permanecer vigilante aos seus sentidos: quais estímulos eles recebem, e qual resposta ele pretende dar? de que forma ele usa seu poder e sua influência?

"Quando pensamos sobre desejo, infelizmente, temos que estar cientes de que ele pode ser extremamente violento. Esse é o perigo do desejo. Ele pode ser violento por questionar o status quo, e esse tipo de violência é algo que encorajamos. Mas também pode ser violento por jogar ácido no rosto de uma mulher que diz 'não'; esse é o tipo de violência que não queremos. Como separamos um do outro? Porque muitas vezes é um que se transforma no outro. Em muitas dessas narrativas de ataques com ácido, por exemplo, o homem dirá 'Eu a amava'. Isso pode nos parecer, e deve parecer, algo totalmente deturpado. Mas o lado obscuro do desejo é que todo desejo pode ser deturpado dessa forma." (Madhavi Menon, 1:59:10

outra história da mitologia hindu em que mulheres sofrem as consequências de desejarem deuses é a de kritikka, as seis mães de kartikeya, o deus da guerra. elas foram abandonadas por seus maridos, sábios como gautama, por preferirem o amor de agni, deus do fogo. mais tarde, tiveram a honra de cuidar de kartikeya, que é filho de shiva.

apenas a sétima irmã, arundhati, não foi acusada de infidelidade e tornou-se uma estrela ao lado das sete estrelas mais brilhantes da constelação ursa maior, que representam os sete sábios. já as seis irmãs divorciadas formam a constelação das pleiades, e dizem que elas trazem azar se não forem lembradas como mães de kartikeya.

kritikkas cuidam de kartikeya, deus da guerra

o nome de agni, que é o elemento fogo, está na origem da palavra ignição e é associado à criatividade e à clareza do pensamento. capaz de reduzir a cinzas as impurezas do mundo material, era muito venerado nas antigas cerimônias védicas (yagyas) e até hoje é visto como uma ponte para a dimensão espiritual. esse aspecto incisivo também está presente nas kritikkas, que o amam.

o amor das kritikkas pelo deus do fogo situa o desejo delas para além da dimensão material. essa característica de não se limitar ao corpo, mas poder se manifestar em todos os lugares, pode ser explicada através de um mito do deus do desejo, kamadeva. como madhavi menon conta em seu livro "infinite variety":

“Sabe-se que Kama, o deus hindu do desejo romântico e sexual, é ananga — sem membros e, portanto, sem corpo. O que significa que, historicamente, na Índia, o desejo é visto em todos os lugares. Qualquer coisa pode ser considerada um objeto ou sujeito de desejo. O desejo não se limita a um corpo (humano). A lenda diz que Kama (em uma versão, nascido do criador, Brahma) é encarregado de induzir o desejo no peito de Shiva para que ele e Parvati gerem um descendente capaz de derrotar o demônio Tarakasura. Shiva fica tão indignado por ser despertado de suas meditações iogues que ele abre seu terceiro olho e queima Kama até ele virar cinzas. Shiva cede quando Parvati implora para que ele desfaça as consequências de sua ira. Ele permite que Kama viva, mas apenas sem um corpo. Assim nasce o deus incorpóreo do desejo.”³

as linhas borradas do desejo não só o tornam difícil de domar, enquanto força que resiste a categorizações, mas também refletem a sua ambivalência e o seu potencial de transformação. permitir que ele guie nossas ações significa ir em direção ao que nos atrai e, no momento do encontro, deixar que as fronteiras se dissolvam. 

assim como se pode desejar o poder, na forma de indra, ou a purificação, na forma de agni, há histórias sobre o desejo de entrar em sintonia com o universo na forma de krishna, o "todo atraente". a dança do amor divino, ou rasleela, é um dos símbolos do bhakti-yoga que representa a união entre krishna e as gopis (vaqueiras), ou seja, entre o divino supremo e a dimensão espiritual de cada pessoa.

krishna e gopi (abdur rahman chughtai)

o que se busca através do bhakti-yoga é se entregar ao fluxo da vida, seguindo o ritmo que krishna toca em sua flauta e que revela qualidades repletas de doçura (madhu). para os devotos, amá-lo significa diluir os limites impostos pelos órgãos sensoriais (indriya) e superar a ilusão de possuir qualquer coisa, pois tudo pertence ao universo. 

pertencer ao universo é descobrir que ele também está contido em nós mesmos. ao compreender que toda separação é ilusória, a força da entrega devocional consiste no próprio desejo pela transcendência, capaz de borrar as linhas, traçadas pela nossa mente, entre sujeito e objeto. 


¹"Desire is more resistant to taxonomy than we would like to think it is. And that's what makes it fascinating, which is also why it's sad when we think that our liberation lies in taxonomizing it. That our liberation lies in coming out with more and more names to describe what we are, rather than allowing namelessness or unnameability to be one of those possibilities." (Madhavi Menon, 1:34:25)

²"When we think about desire, unfortunately, we have to be aware of desire can be extremely violent. That's the danger of desire. It can be violent in a way that we like because it can question the status quo; that's how we've been talking about, and that kind of violence is something we encouraged. It can be violent because it can throw acid in the face of a woman who said no to me; that's the kind of violence we don't want. How do we separate one from the other? Because it's often one that turns into the other. In many of these narratives of acid attacks, for instance, the man will say 'I loved her'. That can strike us, and should, as being utterly warped. But the dirty secret of desire is that all desire is potentially warped that way." (Madhavi Menon, 1:59:10)

³“Famously, Kama, the Hindu god of romantic and sexual desire, is ananga—without limbs, and therefore without a body. Which means that historically in India, desire is seen as being everywhere. Anything can be considered an object or subject of desire. Desire is not confined to a (human) body. The legend goes that Kama (in one version, born of the creator, Brahma) is deputed to induce desire in Shiva’s breast so that an offspring of Shiva and Parvati might be created to defeat the demon Tarakasura. Shiva is so incensed at being awoken from his yogic meditations that he opens his third eye and burns Kama to cinders. Shiva relents when Parvati begs him to undo the consequences of his wrath. He allows Kama to live, but only without a body. Thus is born the bodiless god of desire.”

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