sexta-feira, 13 de setembro de 2024

estranhamento poético

descubro muitas coisas por acaso desde que a índia se tornou o meu império romano.

quando ainda estava lá, peguei um livro com o sugestivo título "book of desire" e descobri que se tratava de um olhar feminista sobre a última parte do clássico "tirukkural", traduzido do tâmil para o inglês pela poeta meena kandasamy.

ao pesquisar mais sobre a tradutora, escutei-a recitando um poema autoral, "mulligatawny dreams", em que ela sonha com um inglês repleto de palavras da sua língua: 

"um inglês com mais de 36 palavras para chamar o mar / um inglês que não menospreze homens e mulheres marrons ou negros / um inglês que saboreie com os cinco dedos / um inglês que fale amor apenas com os olhos"

apesar de ser um vídeo antigo, gosto de como ela aborda com humor e leveza a inexistência de certas traduções, ao mesmo tempo em que se refere ao intraduzível que, tantas vezes, é o que a poesia se esforça em transmitir. não que eu seja alguma especialista nesses temas.

pra ser sincera, tenho uma vaga lembrança de algum comentário, em alguma aula de literatura sobre formalismo russo, sobre o efeito de estranhamento que a poesia provoca... e nunca me aprofundei nisso.

anos depois, ouvi falar do conceito antropológico de estranhamento, que vem do francês dépaysement ("desapaisamento") e deve ter sido elaborado por lévi-strauss, mas também não explorei a fundo como gostaria.

ainda assim, imagino entender do que se trata e sigo buscando palavras de autoras que estranham qualquer ideal de hegemonia. acho que foi esse pluralismo que me atraiu, e continua me atraindo, para a índia.

eunice de souza foi um dos nomes que me chamou atenção. primeiro, por soar tão familiar, vindo do português de goa. segundo, por sua postura irônica e realista, como relata uma de suas alunas:

"She told us about a stray dog on the Bombay University Kalina campus, who would go hungry to feed her pups. I told Eunice that several cats I knew smacked their own kittens if they tried to take away the mothers’ share of food. She replied, ‘Much more sensible, don’t you think?’"

primeira coleção de poemas, lançada em 1979

dentre seus vários poemas espalhados pela internet, esse é um dos que mais gosto:

PEDAÇO DE CONVERSA

Um dia a minha tia educada à portuguesa
pegou num shivalingam de barro
e disse:
é um cinzeiro?

Não, disse o vendedor,
é o nosso deus.

shivalingam de barro

como é possível imaginar a surpresa e o constrangimento de quem pergunta se o objeto sagrado é um mero objeto de descarte, os versos lembram que nossa visão também é limitada. mas eunice de souza não expõe para constranger. no trecho de outro poema, ela mesma afirma sua independência através do (não) pertencimento:

No matter that
my name is Greek
my surname Portuguese
my language alien

There are ways
of belonging

I belong with lame ducks.

continuando a minha pesquisa, encontrei o recorte de uma entrevista que ela fez com a poeta imtiaz dharker, nascida no paquistão e naturalizada britânica:

talking poems: conversations with poets (oxford india)

"Não penso que uma garota ocidental saindo com um garoto seja liberdade. Liberdade é algo dentro de você. Ser capaz de ficar fora de uma cultura é liberdade. Amo ser uma outsider. Diria "alienação", ser outsider é positivo. Não alienada de fato, mas ficar de fora. Ser uma outsider é meu país."

as duas sabem como é difícil lidar com a sensação de não pertencer. por mais que esse incômodo faça parte da experiência de se reconhecer e se distinguir como indivíduo, seres humanos preferem viver em grupo. no entanto, a entrevistada se sente mais livre por ser "de fora", diz que "fora" é o país dos escritores. por quê?

o que imagino do estranhamento, de forma rasa e extensa, é um olhar sensível para o outro e a redescoberta de si mesmo. o "estar no mundo sem ser do mundo" dos poetas e, quem sabe, um retorno a si através da memória. ao menos, isso é o que transparece pra mim quando imtiaz dharker escreve sobre romãs:


COMO CORTAR UMA ROMÃ

“Nunca”, disse o meu pai,
“nunca cortes o coração
de uma romã. Vai chorar sangue.
Trata-a com delicadeza, com respeito.
Basta cortar a casca em quatro quartos.
É uma fruta mágica,
quando a abrires, está preparada
para que as joias caiam,
mais preciosas do que granadas,
mais lustrosas do que rubis,
como se iluminadas por dentro.

Cada joia contém uma semente viva.
Separa um cristal.
Segura-o para captar a luz.
Por dentro é um universo inteiro.
Nenhuma joia vulgar pode te dar isso”.

Depois tentei fazer colares
de sementes de romã.

O sumo de um carmesim brilhante jorrou
e manchou os meus dedos, depois a minha boca.

Não me importei. O sumo tinha o gosto de jardins
que nunca tinha visto, a volúpia
da murta, do limão, do jasmim,
vivo com asas de papagaio.

A romã recordou-me
que em algum lugar tive outra casa.

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