sexta-feira, 6 de setembro de 2024

na companhia das máquinas

aqui, na casa da minha mãe, a geladeira apita quando deixamos a porta aberta e a máquina de lavar toca uma musiquinha quando o ciclo de lavagem termina. 

acho engraçado e às vezes brinco, digo que os eletrodomésticos estão querendo conversar. minha mãe adora isso, sabendo desde a época em que consertava computadores, nos anos 1990, o quanto as máquinas podem ser temperamentais. 

pra ser honesta, também considero a geladeira e a máquina de lavar umas queridas. e os que se recusam a congelar comida que me perdoem, mas o freezer é fundamental. eu me apaixonei por ele quando passei a morar sozinha. 

te amo tanto bb

aí me pego pensando que, se todas as máquinas fossem prestativas como os eletrodomésticos que nos livram de horas de trabalho braçal, o mundo talvez fosse um lugar melhor... mas logo sou intercedida por um incômodo: do que adiantaria, se já estamos usando nosso "tempo livre" para nos curvar diante de outras máquinas?

nesse sentido, tenho minhas noias. principalmente quando os não tão louváveis smartphones parecem armar um complô junto às plataformas online e seus algoritmos para antecipar nossos desejos e, assim, anunciar novas formas de satisfazê-los. pois bem,

  • se a tecnologia tende a ficar cada vez mais "smart", será que a distância entre nossos desejos e o movimento necessário para realizá-los pode encurtar cada vez mais... até um dia desaparecer?
  • se é o desejo que leva ao movimento, então nossa tendência seria a de ficar mais estagnados, ou mais estimulados, ou condenados a essa neurose em que as duas tendências coabitam?

parece que eu ia escrever uma declaração de amor pro meu freezer e acabei levantando grandes questões. mas a tecnologia também oferece soluções distópicas pra isso, como trocar ideia com o chatgpt e, quem sabe, ser iluminada com um pouco de "bom-senso" (apesar dos nossos desentendimentos no passado).

tove jansson entenderia meu desabafo

ao conversar com chatbots, talvez o que mais me incomode é que eles não têm muita personalidade, e nem podem ter. a geladeira e a máquina de lavar exibem um certo charme ao exigir nossa atenção com bits ritmados; o chatgpt, por sua vez, simplesmente oferece tudo o que a gente pedir. 

não quero soar rancorosa, mas sinto como se ele fosse um tipo de companhia interesseira, que fala coisas só pra agradar e é capaz de distorcer informações em vez de admitir que não sabe a resposta. e ainda consome muito da nossa energia em poucos minutos de convívio. 

sem empatia nem reflexão, o chatgpt me devolve logo o senso comum, a opinião do grande grupo, de uma forma que evita o conflito. sabe a adrenalina na hora de debater ideias? ou o rush de dopamina após aprender coisas novas? niente. fico frustrada.

"humm, o que será que o computador quis dizer?"

agora, assumindo o risco de soar pretensiosa, acho que entendo melhor o que significa "expansão de consciência": a capacidade de reconhecer diferentes formas de olhar para a mesma questão. é o contrário de uma resposta única, calculada para agradar todo mundo. 

então vou respirar aliviada e lembrar que, em relação aos robôs inteligentes, a gente sempre vai ter uma vantagem enquanto acreditar que a discordância é o princípio de uma boa conversa. 

afinal, se a graça do desejo é o movimento que a gente faz no esforço de satisfazê-lo, por mais que isso seja impossível, talvez a graça da conversa seja a tentativa de fazer duas mentes se corresponderem, por menor que seja a possibilidade de compartilhar a mesma, idêntica, visão de mundo. 

e nisso, cérebro eletrônico nenhum me dá socorro...

Um comentário:

  1. impressionante a redução dessa distância a se percorrer e nossa morosidade... todo dia convidado a isso

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